Mudanças climáticas e desmatamento agravam crise hídrica em regiões como a Amazônia e o Pantanal; consequências afetam biodiversidade e intensificam crimes ambientais.
O Brasil está passando pela maior seca já registrada em sua história, com 1.400 cidades enfrentando níveis extremos ou severos de estiagem. Esse período de seca, que começou mais cedo do que o habitual, é reflexo de um cenário global de mudanças climáticas, com impactos agravados pelo aquecimento global. Os efeitos são sentidos em diferentes regiões do país, com destaque para a Amazônia e o Pantanal, áreas essenciais para a biodiversidade brasileira e o equilíbrio ambiental.
Clima Global: Aquecimento Sem Precedentes
O ano de 2024 já registrou o mês de agosto mais quente da história, com temperaturas médias 1,5ºC acima dos níveis pré-industriais. Dos últimos 14 meses, 13 apresentaram aumento significativo da temperatura, evidenciando a gravidade da crise climática global.
O pesquisador Giovanni Dolif, do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), aponta que a elevação das temperaturas não é uma anomalia temporária, mas uma tendência que veio para ficar. “Estamos vivendo um aquecimento acima da média global. Em São Paulo, o inverno de 2024 registrou temperaturas dois graus acima do normal”, explica Dolif.

Carlos Nobre, climatologista e um dos principais nomes no estudo das mudanças climáticas no Brasil, ressalta a gravidade do momento. “A Terra está enfrentando o período mais quente desde o último interglacial, há 120 mil anos. Isso está amplificando todos os eventos climáticos extremos, como ondas de calor, secas prolongadas e chuvas intensas”, alerta.
Impactos Diretos no Brasil: Pantanal e Amazônia em Perigo
O aumento das temperaturas tem efeitos devastadores em ecossistemas críticos, como o Pantanal. A região, considerada uma das maiores áreas úmidas do mundo e um berço da biodiversidade, está sendo fortemente ameaçada pela seca e pelo avanço dos incêndios florestais. Luciana Gatti, cientista do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), explica que o Cerrado, de onde nascem os rios que abastecem o Pantanal, está mais de 60% desmatado, o que compromete o ciclo hídrico da região.
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“O Cerrado funciona como uma floresta de ponta cabeça. As raízes profundas ajudam a água a infiltrar no solo e a abastecer os lençóis freáticos. Com o desmatamento, essas raízes morrem, e o abastecimento dos rios diminui drasticamente”, afirma Gatti. A perda dessa vegetação compromete o equilíbrio dos rios que alimentam o Pantanal, tornando a região cada vez mais vulnerável à seca e aos incêndios.

Na Amazônia, o cenário também é preocupante. O desmatamento ilegal, aliado às altas temperaturas, está criando as condições perfeitas para a propagação de incêndios florestais. Segundo dados da Polícia Federal, grande parte dos incêndios que ocorrem na região tem origem criminosa, com ação humana deliberada para atear fogo na floresta.
Crimes Ambientais e Mudanças no Combate ao Desmatamento
A Polícia Federal investiga os incêndios criminosos que afetam a Amazônia, e o delegado Humberto Freire revela que há indícios de que muitos desses incêndios são coordenados por grupos organizados. “Há uma clara atuação dolosa, com ações planejadas para provocar queimadas e facilitar a apropriação de terras. Estamos aprofundando as investigações para identificar os responsáveis”, afirma Freire.
Esse tipo de ação não é novidade. Em 2019, no município de Novo Progresso (PA), ocorreu o “Dia do Fogo”, em que grileiros e invasores organizaram queimadas para abrir caminho para a apropriação de terras públicas. Situações semelhantes continuam a ocorrer, o que levou o governo a endurecer as punições para crimes ambientais.
A ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, destacou que o governo federal está revisando as leis para aumentar as penas para quem provoca incêndios criminosos. Atualmente, a pena varia entre dois e sete anos de prisão, mas novas medidas podem incluir o confisco de propriedades, nos moldes do que acontece em casos de trabalho escravo, além da restrição ao acesso a crédito.
Marina Silva também alertou para uma mudança perigosa na estratégia dos criminosos ambientais. Com a redução do desmatamento em algumas áreas da Amazônia, os grileiros estão utilizando o fogo como nova ferramenta de devastação. “Eles perceberam que, com as mudanças climáticas, a floresta perdeu parte de sua umidade. Mesmo com as árvores de pé, o fogo se espalha rapidamente. Eles queimam primeiro, depois derrubam e tentam regularizar a área de forma criminosa”, afirmou a ministra.
O Fogo Como Novo Desmatamento
A combinação de secas intensas e incêndios florestais tem consequências devastadoras para o meio ambiente e para as populações locais. A ministra Marina Silva reforça que o fogo se tornou o principal instrumento de desmatamento ilegal na Amazônia, substituindo em muitos casos o desmatamento tradicional. Para combater essa prática, o governo pretende bloquear qualquer tentativa de regularização fundiária que esteja associada à apropriação ilegal de terras públicas. “Precisamos interromper essa aliança perversa entre fogo e ocupação ilegal. A terra pública precisa ser protegida, e os criminosos, responsabilizados”, conclui a ministra.
Enquanto o Brasil enfrenta essa crise climática sem precedentes, cientistas e autoridades alertam para a urgência de medidas efetivas no combate às mudanças climáticas e à devastação ambiental. Se nada for feito, o país poderá ver um agravamento ainda maior dos eventos extremos, com impactos profundos na biodiversidade, na segurança hídrica e na qualidade de vida da população.
Fonte: O globo
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